Das chuvas que se põe nas coisas

São das garoas que nos nutrimos cá dos instantes mais zelosos da nossa formação afetiva. É do cheiro de terra molhada, na mistura dos costumes mais lentos que tecemos as nossas mais formidáveis sinfonias de silêncios. Odes à calmaria das formas.

Eu me via de coração pálido e de olhar ávido quando encontrei pela primeira vez aqueles olhos de amor distribuídos em gramas assanhadas durante aquela tarde de vadiagem acadêmica. Encontrei nos seus olhos marejados a criadora majestade de todos os pontos e bordados das nossas falas de amor convulsas, típicas das mais românticas erupções adolescentes. Mas hoje, os arrimos são badalos de fim de tarde, são remansos que carregam garoas. Reencontramos-nos num não-encontro e mesmo assim, nos apresentamos um ao outro como se fôssemos marchas de um mesmo séquito.

Às vezes deve-se pensar em colocar chuvas aos fatos, da mesma maneira como se põe ordem nas coisas, ou vice-versa. Chuvas finas e resolutivas como se fossem costuras invisíveis na construção de uma quietude temporal; tempestades luminosas para que as ideias brilhem na sintonia de um céu rasgado; chuviscos indecisos ao tempo que escorre pela janela.

 

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Quando pude ser velho

Suspirei à beira da minha poltrona velha como se o tempo não estivesse apagado o amontado de vírgulas que seguimos naquele empurra empurra de letras descabidas. As nossas cartas, meu amor, começam a dedilhar os meus pensamentos como se minha alma fosse arpa, como se a tabacaria de Pessoa tivesse passado em vão ao lado de nossa cabeceira. Ali, esfarrapado e minguado, perdido entre o couro austero da poltrona consegui enxergar a lembrança do nosso quintal varrido, da grama úmida e muda que sustentou tantas rodas afetivas. Éramos enamorados, lanças coesas de batalhas devocionais. Eu era mártir e você a minha Dalva, o meu suspiro em promessas de amor retesadas. Eu construí a família como se fosse hino ao seu colo.

Hoje eu vejo a brisa tocando as últimas horas do meu derradeiro romance, já não me defronto mais com o limite que sempre aceitei em tão bom grado. A juventude se foi, a névoa passou e as juras se tornaram noturnos melódicos. Vejo em ti.

Como surtir os efeitos dessa solidão jogada? Pergunto-me de maneira incessante, à luz da vela que consome o pavio da minha fluidez, pergunto ao tempo se a justa medida está nas grandes narrativas de amor ou se estas são apenas estratégias para tornar o aspecto mundano das coisas menos exaustivo e cruel. Eu queria-te viva para perguntar-te o que fazer com esta massa inerte de vida que ainda me desperta na modorra das tardes, queria questionar-te também sobre a minha postura e sobre o peso que retenho no cenho. Minhas rugas estão virando rios, Dalva. E eu cá, médio, turvo e disperso, paralisado num ponto de vista, a lembrar de suas palavras que ao pé da pitangueira insistiam em desabrochar “que os olhos são a candeia do corpo”

Susan - Hello don't hang up

por: Paulo Augusto Franco
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Pé de pitanga

Eu só descobri que era em minha direção que você soprava os seus pensamentos quando, por um golpe de delícias, eu deslizei o meu pincel junto ao cheiro do seu cabelo.

Jennyyfurr

Por: Paulo Augusto Franco

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Canibal

A última vez que trocamos as vísceras foi quando ela, num gesto súbito de amabilidade contida, me acenou enquanto entrava em casa com um bulldog na coleira. Senti naquele instante permissivo que poderíamos a qualquer instante unir os nossos pés num pé de cama qualquer. Senti que poderíamos digerir coisas banais da vida em qualquer construção constrangedora e cotidiana. Eu a senti engolindo os próprios lábios.

Sem que nada pudesse me culminar em qualquer ato, meio que despercebido, acenei com os olhos antes que ela levantasse uma das mãos, ascendi o meu peito brado à fim de encarar algo que passasse das horas combinadas do portão, mas logo fui contido por uma timidez imperativa, quase que claustrofóbica. Além do bulldog enrolado ao punho, ela tinha uma mãe à frente, ressabiada, eu a senti engolindo os próprios olhos.

Vi o último feixe de vista interna da casa sendo sugado pelo movimento da porta ao se fechar, tentei captar o último grunhido, a derradeira gota de alguma manifestação que viesse dela para refletir-se na rua para então socar-me um dos olhos. Desde então, ela se esconde para se manter além dos colapsos das retinas, bem enquadrada numa moldura que eu mesmo esculpi, na ternura de uma tarde no jardim, à sombra de um conto de natal, pela proeza de uma síntese sincera. Eu, desde então, peco por seus rastros, consumo qualquer gesto que for desde que venha de sua janela, só para consumir esse terno romance platônico tecendo em qualquer momento a sonata singela que engole as suas próprias notas.

Sita Marie

Por: Paulo Augusto Franco

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Bem feito!

Me lembro de quando costumávamos riscar as estradas com o giz das nossas astúcias, no tempo em que dormíamos em qualquer estacionamento tendo como expectativa apenas um brindar de gorjeio ao tornar dos primeiros raios do sol. Éramos livres feito célebres pássaros de paisagem, compúnhamos a lírica modelo dos casais menos óbvios. Andávamos, e como andávamos, você e eu, apenas, contando as falcatruas que o tempo pregava pelas esquinas de Monte Velho, unindo as nossas capacidades mais mundanas ao transgredir qualquer relato de butequim em música para os olhos.

Éramos Pedro e Alice, Lara e Jaime, Cor e Vento, Bruma e Luxo, Paulo e Rodrigo. Éramos vários e um, talvez outro movimento turvado por memórias imaginárias. Ousávamos desafiar a retesão dos lenços em danças mendigas e em promessas sempre maiores do que éramos. Vestíamos e figurávamos os nossos sonhos não herdados para fotografar cenas de amor que de tão passionais podiam se fingir de inóspitas. Eu te amei, te adorei, te consagrei feito aroma de infância, feito barulho de chuva na calha, feito eu, feito nós. Feito bem.

Théo Gosselin

por: Paulo Augusto Franco.
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Porta-retratos vazio

autonomia, resistência e molovs só andam me aproximando mais das metáforas construídas naquele gramado. . .

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Resiliência

A gente vive como se as nossas principais crenças estivessem vivas apenas em nossos costumes, hábitos e vícios. É como uma equação que tende ao infinito, como a freqüência de uma fonte e feito o espaço existente entre duas nuvens regulares. É como uma virtude que se projeta e se emancipa no ardor do “pra sempre”. Resiliência é a nossa capacidade de desamarrotar, de retornar ou descobrir o próprio estado de natureza em nós. Resilir está na possibilidade de encontrar em novos brindes de olhares, em outros gestos em sintonia e na abertura a outros céus, as saídas para aquelas súbitas sensações de vazio que uma partida, um pé na bunda ou uma ruptura impera em nós.

Primeiro ato: o brilho quase infantil e desprotegido enchendo o parapeito da janela vizinha, desenhando no ar as possibilidades de uma vida serena e doce, na proteção do lar, através da distração do amor que de tão despercebido, finge-se de platônico.

Segundo ato: o casado que sofre de tédio sexual deseja se aventurar em novas sensações e, com o aval de seu domador, cai nos encantos da modernidade como quem abraça de maneira firme e desejosa o coração da criatura solitária que, numa fúria súbita por brindes, o segura em seus braços. Receba-0, só por desatino.

Terceiro ato: o tímido e doce estranho(geiro) que na pureza de sua calma católica devora todos os intuitos de uma paixão criativa.  O menino que se sustenta através de um olhar acalentador sobre a narrativa da vida em indierock e em cantos gregorianos. Gente assim, a gente bebe feito leite morno, na companhia de uma manhã lenta, suave e prodigiosa.

 

A vida está em todos esses encontros, está, principalmente, na nossa capacidade de narrá-la, está no arranjo entre o ponto e uma vírgula.

por: Paulo Augusto Franco

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