São das garoas que nos nutrimos cá dos instantes mais zelosos da nossa formação afetiva. É do cheiro de terra molhada, na mistura dos costumes mais lentos que tecemos as nossas mais formidáveis sinfonias de silêncios. Odes à calmaria das formas.
Eu me via de coração pálido e de olhar ávido quando encontrei pela primeira vez aqueles olhos de amor distribuídos em gramas assanhadas durante aquela tarde de vadiagem acadêmica. Encontrei nos seus olhos marejados a criadora majestade de todos os pontos e bordados das nossas falas de amor convulsas, típicas das mais românticas erupções adolescentes. Mas hoje, os arrimos são badalos de fim de tarde, são remansos que carregam garoas. Reencontramos-nos num não-encontro e mesmo assim, nos apresentamos um ao outro como se fôssemos marchas de um mesmo séquito.
Às vezes deve-se pensar em colocar chuvas aos fatos, da mesma maneira como se põe ordem nas coisas, ou vice-versa. Chuvas finas e resolutivas como se fossem costuras invisíveis na construção de uma quietude temporal; tempestades luminosas para que as ideias brilhem na sintonia de um céu rasgado; chuviscos indecisos ao tempo que escorre pela janela.





